A vazante do rio Negro começou mais cedo e está mais rápida em 2026 do que no ano passado. Apesar da aceleração, os níveis ainda seguem dentro da média histórica. O principal sinal de alerta está na previsão de pouca chuva nos próximos meses, cenário que pode favorecer uma seca mais intensa no Amazonas.
De acordo com dados do Porto de Manaus, o rio Negro começou a baixar em 3 de julho deste ano, seis dias antes do registrado em 2025, quando a vazante teve início em 9 de julho.
Desde o começo da descida, a velocidade média foi de 4,15 centímetros por dia. Em agosto, porém, o ritmo aumentou para 6,6 centímetros por dia, quase o dobro do registrado no mesmo período de 2025. Apesar da velocidade maior, o comportamento do rio ainda não é considerado fora do normal.
Segundo o pesquisador Elton Andreatta, gerente de Hidrologia e Gestão Territorial da Superintendência Regional de Manaus (SUREG-MA) do Serviço Geológico do Brasil (SGB), os dados atuais não indicam uma vazante excepcional no rio Negro.
“Esse comportamento, até o momento, no rio Negro, ainda está dentro (da normalidade), apesar dessa vazante um pouco mais acelerada, mas ainda está dentro da média”, afirmou.
O SGB acompanha os níveis das principais bacias da região, incluindo os rios Negro, Solimões, Madeira, Branco, em Roraima, e Acre.
Atualmente, apenas as regiões de Boa Vista e Caracaraí, em Roraima, apresentam níveis abaixo da média. O rio Branco está próximo do limite inferior, mas ainda dentro da faixa considerada normal. As demais bacias permanecem dentro do comportamento esperado para o período.
Como as mudanças nos rios chegam a Manaus?
O comportamento dos rios também varia de acordo com o tamanho de cada bacia. Como a Bacia Amazônica é muito extensa, os efeitos da chuva ou da estiagem não aparecem ao mesmo tempo em toda a região.
Segundo Andreatta, uma alteração registrada em Tabatinga pode levar de sete a dez dias para apresentar reflexos em Manaus. Em bacias menores, como a do Madeira, a resposta costuma ser mais rápida.
“Quando chove lá nos Andes, já dá reflexo na bacia do Madeira, que é uma bacia menor. Claro que não é na hora, demora alguns dias”, explicou.
A expectativa é que o período de menor nível dos rios ocorra, na maior parte da região amazônica, durante o mês de outubro.
Indicadores climáticos acendem alerta
Apesar de os níveis dos rios ainda estarem dentro da normalidade, os indicadores meteorológicos já acendem um sinal de alerta.
Segundo a geóloga Thayná Nascimento, da Defesa Civil do Amazonas, a análise dos dados entre 2020 e 2026 mostra que o comportamento atual do rio Negro ainda está dentro do padrão esperado. Para ela, o cenário considerado fora da curva foi o de 2025, quando o pico da cheia aconteceu mais tarde e resultou em uma vazante mais lenta e curta.
“Portanto, o ritmo da vazante está dentro da normalidade no momento, pois essa anomalia ainda não refletiu no nível dos rios”, explicou.
O alerta está nas condições do clima. Dados analisados pela Defesa Civil, com informações do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), classificam a Bacia do rio Negro entre “muito seca” e “tendendo a extremamente seca”. A previsão também aponta para chuvas abaixo da média nos próximos 15 dias.
“Mas o monitoramento segue contínuo, pois pode ser uma vazante semelhante à de 2023 e mais duradoura, devido à contribuição do El Niño que está se configurando no momento”, afirmou Thayná.
Ainda não é possível prever uma seca como a de 2023
Os sinais de uma estiagem mais intensa em 2026 levantam a possibilidade de um cenário semelhante ao de 2023. No entanto, o SGB afirma que ainda não há elementos suficientes para dizer qual será a dimensão da seca.
Questionado sobre a possibilidade de repetição daquele cenário, Elton Andreatta afirmou que ainda não é possível dizer se a estiagem será igual, pior ou tão intensa quanto a de 2023.
“Não temos como afirmar que será igual, ou pior, ou tão ruim quanto a de 2023. Ainda não temos como afirmar isso”, declarou.
Apesar da cautela, o pesquisador reconhece que as previsões atuais apontam para uma seca mais intensa do que a observada em 2025.
“É esperado, e eu espero que não ocorra, mas as previsões e tudo indica que está configurado para mais seca”, afirmou.
Fonte: Onda digital