Uma pesquisa que busca ampliar o acesso à saúde sexual e reprodutiva de mulheres em situação de rua, em Manaus, conquistou destaque na IV Mostra “Manaus, aqui tem SUS”. O trabalho ficou em 1º lugar na área temática de “Atenção Básica” e alcançou o 2º lugar na classificação geral do evento.

Intitulado “Educação e acesso à saúde reprodutiva de mulheres em situação de rua em Manaus”, o estudo, que tem entre os autores a mestranda Layla Calazans Muller, do Programa de Mestrado Profissional em Saúde da Família (Profsáude) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ficou entre os dez selecionados para representar a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) na VII Mostra “Amazonas, aqui tem SUS”, marcada para os dias 7 e 8 de maio de 2026.
Desenvolvido no formato de relato de experiência, a pesquisa integra o projeto “Mulheres na rua também escolhem”, iniciado em janeiro de 2025, coordenado pela Prof.ª Dra. Monique Freire dos Reis e conta com Layla, como sub-investigadora principal, além da participação de outros profissionais da saúde. A iniciativa visa ampliar o acesso a métodos contraceptivos e identificar a aceitação deles por parte das mulheres atendidas.

“Desde janeiro de 2025, estamos nas ruas, em praças públicas e em instituições que acolhem pessoas em situação de rua, levando cuidado em saúde sexual e reprodutiva. No contato com essas mulheres, percebemos que, muitas vezes, o que falta não é apenas um método contraceptivo, mas a possibilidade real de escolha, seja pela falta de acesso, pelas barreiras nas unidades ou preconceito que sofrem diariamente. Este projeto busca, justamente, garantir que mulheres em situação de rua, também, tenham o direito de decidir se querem ou não engravidar e em que momento da vida desejam gestar. Cuidar da saúde reprodutiva dessas mulheres é reconhecer sua autonomia, sua dignidade e seu direito de existir e decidir sobre o próprio corpo”, disse a mestranda.
Entre os destaques da iniciativa está a oferta do Implanon, implante contraceptivo subdérmico de longa duração. Até dezembro de 2025, o método não era disponibilizado pela rede pública de saúde da capital, e as participantes do projeto foram as primeiras a ter acesso a ele por meio da ação.
Segundo Layla, o Profsáude da UEA teve papel fundamental ao contribuir com ferramentas teóricas e metodológicas para a investigação e elaboração de estratégias de cuidado, incentivando profissionais a desenvolverem soluções resolutivas e custo-efetivas a partir de desafios reais do cotidiano.

“Foi muito gratificante ter nosso trabalho reconhecido, não apenas pelo prêmio em si, mas pela oportunidade de dar visibilidade a um grupo historicamente invisibilizado. Esse reconhecimento reforça que o cuidado em saúde deve ser garantido a todos, em qualquer contexto, e que pessoas em situação de rua precisam ser vistas, respeitadas e incluídas nas estratégias de cuidado. Além disso, esse reconhecimento nos incentiva ainda mais a continuar na luta pela equidade e pelo direito à saúde”, reforçou a sub-investigadora principal.
O trabalho conta ainda com a participação dos seguintes autores: Bárbara Pazini Jungklaus, Maria Eduarda Leão de Farias, Evelyn de Oliveira Santos, Christiane Maria Prado Jeronimo, Leidiane Mendes Brito Cacciola, Jacqueline Cavalcanti Lima, Eucinara Buas Guedes, Maria Dinez Fabá de Oliveira, Lúcia Helena de Araújo Jorge e Monique Freire dos Reis.
Resultados e desafios

De acordo com a pesquisa, o implante subdérmico tem sido o método preferido entre as mulheres atendidas, superando alternativas como o DIU (Dispositivo Intrauterino) e os contraceptivos injetáveis. O estudo também identificou resistência ao DIU, frequentemente associada a medos e desinformação, apesar de sua eficácia e segurança.
“Temos verificado que as principais barreiras que impedem o uso de anticoncepcional estão relacionadas: ao desconhecimento dos métodos ou ao medo de efeitos adversos, visto que, nas ruas, o acesso a absorventes e itens de higiene é escasso; ao estigma e preconceitos que sofrem nas UBS, tanto por usuários quanto por profissionais, fazendo com que evitem buscar os serviços; além da falta de vagas ou burocracias que dificultam o acesso.”, reforçou.
Conforme Layla, os resultados do projeto evidenciam a necessidade de ir além da oferta de métodos contraceptivos, sendo preciso a implementação de estratégias que garantam acesso efetivo e atendimento qualificado.

“Sem qualificação profissional e estratégias de equidade na APS voltadas para essa população, não conseguiremos combater os altos índices de gravidez indesejada”, disse.